CONSPIRAÇÂO
Meu primeiro trabalho para a trilogia de Gabriel Sanches foi com o volume I da trilogia "Os Cavaleiros de Santiago" intitulado "Conspiração". Para quem não sabe, existiram várias ordens de cavaleiros na idade média e uma delas se chamava Ordem Militar de Santiago (para saber mais), que tinha como emblema a espada crucífera que vemos nos peitos dos personagens acima. Foi-me encomendado pela Corifeu e recebi o seguinte briefing do Albert:
Briefing da ilustração da capa
Ilustração com quatro cavaleiros trajados com vestes iguais à da figura em anexo (cruzado.jpg), com a diferença de que a cruz vermelha ao centro de sua túnica deverá ser a de Santiago, conforme figura também em anexo (cross_santiago.png).
Os quatro cavaleiros estão desmontados, em primeiro plano, sem os elmos para que seus rostos se tornem visíveis. Um ou dois podem ter as espadas nas mãos, carregadas casualmente, enquanto os outros a manteriam na bainha. Os quatro estão no mesmo nível (não haveria qualquer proeminência de nenhuma figura), e o fundo seria de um terreno montanhoso, recortado pela figura de um castelo em ruínas.
Mais adiante, segue a instrução:
Descrição dos quatro cavaleiros
Santillana:"homem alto, de boa envergadura (1:85 metro), dono de cabelos loiros muito claros e um rosto harmonioso"... "dono de olhos azuis profundos"
Felipe Blanco: "tez morena, corpulento, cerca de um 1.80 m altura. O capuz pendido no pescoço e a ausência de um elmo deixavam à vista seus cabelos castanhos ralos e suas feições severas"... "As íris castanhas (...) as sobrancelhas volumosas"
Forlán: "Ricardo Forlán, um rapaz moreno de estatura mediana (1:75 metro) e braços musculosos". Cabelos negros, longos e lisos, caídos sobre os olhos e aparenta menos idade do que realmente tem (em torno de 25 anos).
Roriz: "Era um rapaz alto (1:85 m), de tez clara, ligeiramente menos encorpado que Forlán". Possui o nariz ligeiramente encurvado e tem cabelos e olhos castanhos.
O ideal é colocar Santillana e Roriz no centro, ladeados por Felipe e Fórlan, devido a altura deles.
Na verdade, gosto de ler sobre o que estou ilustrando e, mais do que nunca neste caso, ler a obra seria fundamental. Infelizmente nem sempre é possível por causa de inúmeros fatores, mas principalmente por causa de tempo ou a falta dele. Tenho algumas reservas quanto a esta capa justamente por conta de pesquisas preliminares que deveriam ter sido aprofundadas e não foram. Refiro-me especificamente ao background da cena. Aqui é preciso esclarecer que a energia empregada em um trabalho nunca é a mesma, nem pode ser. Normalmente emprega-se mais ou menos energia criativa dependendo do que estamos querendo ilustrar e, talvez, esta tenha sido minha falha nesta capa, falha que procurei compensar na segunda, Salvatierra.
SALVATIERRA
Com Salvatierra a história foi diferente. Já havia percebido a profundidade da pesquisa de Gabriel e seu envolvimento com o tema, o que difere bastante da maioria dos escritores com os quais tenho tido contato. Nada mais natural, portanto, aprofundar-me também e fazer juz ao conteúdo que estarei envolvendo com a minha arte. Novamente recebi o briefing do Albert, que sempre procura trazer tudo o mais detalhado possível, o que também é uma grata exceção em terras brasilis. Neste resumo, o castelo deveria estar ao fundo e o destaque seria para o chefe muçulmano Al-Nasir em primeiro plano. Soube neste briefing, que este segundo capítulo da trilogia seria mais sangrento, pois o cenário é o cerco a fortaleza de Calatrava na Espanha. Consultei o autor sobre a possibilidade de mudança de perspectiva da cena, pois queria algo mias claustrofóbico, "apertado". Com a anuência do editor e do autor elaborei a perspectiva dos sitiados, tentando desesperadamente travar o avanço das tropas orientais.
Eis um trecho do livro que me inspirou bastante neste sentimento:
“Por Cristo, são milhares!” – Diaz mal podia crer em seus olhos – “Um exército completo para tomar Salvatierra!”.
O calatravo observou a quase imperceptível marcha do inimigo durante longos segundos, perplexo ante a imensidão das tropas que o Miramamolin enviara contra a fortaleza. A magnitude do exército mobilizado naquela missão seria suficiente para fomentar o cerco de uma cidade como Toledo.
- Gutierrez! – berrou o Grão-mestre repentinamente, como se despertasse de súbito de um terrível pesadelo – Dê o toque para os besteiros! Reúna-os aqui nas muralhas! Agora!
O som estridente da trombeta cruzou as ares do castelo, e, em instantes, dezenas de homens armados com bestas e aljavas de setas acorreram para o alto dos muros de pedra da fortaleza. A algazarra era infernal, mas Diaz não se furtava de distribuir ordens aos berros.
- Rápido! Aqui em cima! Quero todos os besteiros aqui no alto, agora! Todos!
Os combatentes chegavam às dezenas, galgando os andares das escadarias que levavam às muralhas aos saltos e chocando-se entre si. Berizo, que se mantinha ao lado do calatravo, sacou algumas setas de seu feixe de quadrelos e alinhou-os no chão, acoplando um meticulosamente sobre a canaleta da arma.
(para saber mais sobre a obra e o autor)
Creio ter sido, desta feita, bem-sucedido atribuindo à capa uma unidade, com esta mistura entre ação e desespero usando uma abordagem totalmente pictórica, sem linhas de contorno.
O TEMPLÁRIO
No início de maio de 2009 recebo com alegria a notícia de que a continuação da saga está no forno. Gabriel, mais uma vez, descreve seu conceito da capa do Templário:
"O templário é um livro envolto basicamente em uma áurea de mistério, no qual o personagem central é um homem sinistro e de identidade desconhecida durante grande parte da narrativa (acabo revelando quem ele realmente é apenas na última linha). Na realidade, ele é um cavaleiro de Santiago que acaba se tornando conhecido pelo codinome "o templário" e que cria um certo ambiente de mistificação em torno de sua figura. Ele é misterioso, violento, desconhecido e costuma deixar sua marca de crueldade por onde passa. Acaba se tornando uma lenda. Uma lenda sem nome".
Gabriel ainda dá uma dica do cenário descrevendo que "quanto às ruelas, elas são bem tradicionais especialmente no sul da Espanha, em cidades como Sevilha, Granada e Córdoba, que possuem verdadeiros labirintos de becos em suas periferias". Pesquisando, vi que as ruelas ainda estão lá, mas com uma atmosfera diferente da imaginada. Queria paredes bem rústicas, mal acabadas, pois desejava priorizar nesta capa as texturas, uma vez que o tema não era tão frenético quanto o volume anterior da saga. Assim, abusei dos metais na tipografria, do couro e do algodão cru. Do foco e do desfoque da cena, fazendo com que o leitor demore-se mais na arte.
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